Repara
Não separa
O que não agrada- apara.
sábado, 11 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
quinta-feira, 24 de março de 2011
Chafurdar( ou da inquietação de um causídico)
“Os escrotos estão em toda parte”- dizia. Dizendo isto, Vautrin ajeitava os óculos que pairavam sobre seus pequenos e foscos olhos. “No Direito não será diferente. A única diferença é que o Direito é uma escrotidão institucionalizada, oficializada, e não aceita nenhum tipo de escrotidão paralela. A lei não é nada. Muitos teóricos já discorreram sobre esta falha, você já deve ter estudado. Lassale proferiu em sua célebre palestra de 1862 que a Constituição não seria mais do que um pedaço de papel. Bem antes, em 1651, Hobbes já salientava que os pactos sem a espada não passam de palavras. E os escrotos do Direito têm o respaldo da espada e compactuam tacitamente com a opressão das classes mais baixas da sociedade, a saber, os escrotos que não têm dinheiro”. Essas palavras, à primeira vista, parecem brutas para um jovem estudante, pronto a desbravar trilhas, entre artigos, incisos e alíneas trêmulas, vacilantes, e ostentar bandeiras em nome da justiça. Alea jacta est. Talvez Vautrin estivesse certo, talvez não. Talvez seus pequenos olhos opacos guardassem tamanha experiência e sabedoria, e por isso fossem opacos. O reflexo dos óculos ainda disfarçava essa tenaz amargura, como um feixe de esperança. Será? Não pretendo me corromper com o sistema ou compactuar com a escrotidão promulgada.E talvez ainda tenha muito o que aprender. Alea jacta est.
OBS: Vautrin vem do francês se vautrer(chafurdar). O nome vem da obra Le Père Goriot de Honoré de Balzac.
OBS: Vautrin vem do francês se vautrer(chafurdar). O nome vem da obra Le Père Goriot de Honoré de Balzac.
sábado, 12 de março de 2011
Camafeu
Ah, se eu pudesse te levar como quem porta consigo no bolso um camafeu de engenhosa ourivesaria, feito de delicado ouro e rocha ígnea... Você tem em si o vulto de um gesto, o tilintar que existe do choque entre o momento-agora e o momento-por-vir e ainda a agrestia em estado bruto,como que barro.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Da inquietude simbiótica
Seria eu um líquen ancestral que brota ao acaso na noite, passado o ocaso, lançando seus esporos em forma de estrelas? Talvez a brisa lunar os leve e os faça germinar numa planície longínqua, porém úmida e uterina, até que se forme uma grande malha de hifas entrelaçadas, um gentil toldo de vida primitiva sob a chuva, sob cumulus nimbus, o mau tempo e as intempéries dos Deuses?A minha parte alga pede corpo, minha parte fungo pede alma. Eu digo “calma”.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Sobre a embriaguez
Então, escrevo com calma. Se outrora, escreveria este texto com uma pena e mancharia as pontas dos meus dedos de tinta, sentindo seu sabor pelo tato. Sentiria meu texto pelo tato, uma espécie de braile para quem pode ver. Não ver, fitar. Sorver. Observar. Perceber a vibração com acuidade. A vida é um jogo sádico de espaço-tempo no qual o que nos importa não é saber como jogar, como mover nossas peças, mas quem fez as regras- se Deus, ou o Diabo, ou quem sabe alguma outra divindade qualquer. Que importa se um cavalo vale mais que dois peões? -B7. Que importa se o bispo só anda na diagonal?- D4. O que importa é proteger o rei-C9. Permaneço impassível e inerte nesse tabuleiro. Que me importa o teorema de Pitágoras, o binômio de Newton e até mesmo a Vênus de Milo? Que me importam Césares, Napoleões, Churchills, impérios, fronteiras, raças e credos?Xeque. Preciso me ater a Buddhas, Alás, Jeovás, Deuses, a mono ou politeísmos, entidades que se exibem em diversas formas. Atenho-me a eles porque é preciso proteger o rei. E pra proteger o rei é preciso ter o timing certo pra fazer a jogada certa-G3. “Omnia tempus habent et suis spatiis transeunt universa sub cælo” -“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.”, dizia o Eclesiastes. Vivo em nunc-stans, e portanto há tempo para todo o propósito.É o meu refúgio. Vivo no tempo messiânico de Benjamin, onde tudo acontece simultaneamente, daí não sinto o tempo passar. Acho que deve ter sido isso que Baudelaire quis dizer quando escreveu incitando as pessoas a embriagarem-se, de vinho, poesia, ou virtude, para não sentirem o fardo do tempo. A embriaguez é o meu nunc-stans. Graças a ela meu rei está resguardado, enquanto meus peões, cavalos e bispos singram pelo tabuleiro. Apenas ainda não me decidi de quê - de vinho, poesia ou de virtude.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Soldado Noguchi- um outro sonho
Desculpa, mas você morreu. Morreu nos meus braços, eu testemunhei. Morreu enquanto bebia dum leite quente e tenro, enquanto o sugava avidamente de meus seios incestuosos. Mas logo logo toda a sua volúpia láctea se condensaria, se fermentaria e se transubstanciaria no meu corpo. Um corpo antes delineado em curvas suaves, antes apenas nuance, agora é um corpo pesado, sinuoso, clandestino. Você não suportou o peso dessa estalactite abissal que incide pendular na sua vida. O adorno sobre o seu pescoço, o seu colar, era na verdade uma Boa constrictor.Nenhum toque nunca te deu tanto tremor, tanto espasmo. Tesão? Obsessão?Podridão? Uma sinonímia boba, supérflua, tudo uma taxionomia vã que só vai rotular essa latência conspícua que você experimentou comigo.Só eu sei os teus dispositivos ocultos.E você gozou da minha presença enquanto pôde. Se não fosse a fermentação.E aquela velha amargura, aquela antiga inquilina, volta a fazer casa em ti, e de vez em quando insiste em querer sair em golfadas. Mas, no fundo, você tem saudade. Você não queria ter conhecido como é sentir isso com alguém. Ainda mais alguém como eu, que vivo no pulso cru das profundezas. Sou um eco gutural que entoa do teu centro e ao atingir sua superfície(ou a lembrança de minha mão em tua pele) sofre reflexão e volta.Você não saberia sustentar isso.E agora o leite que posso te oferecer amargou. Seus pais não acreditam que você morreu.Eles acreditam ainda que alguém vai te oferecer o que eu te ofereci.E ainda te esperam, na sua casa, lá no fim do túnel. Mas você morreu. É um fato: você morreu.
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